Não me lembro muito bem quando comecei a curtir a adrenalina, mas lembro-me quando os primeiros dentes de leite começaram a cair.
Fiquei empolgadíssima por imaginar que isso seria um presságio de estar crescida e ser “dona do próprio nariz”, aspiração bem comum à criançada. Mal sabem as pobrezinhas iludidas que os minguados anos de infância sonhando com a tão almejada independência acabam logo substituídos por décadas de lamento pela irrecuperável juventude.
Eu própria, com meus 30 e lá vai pedra, até pouco tempo atrás não tinha ainda passado pelo dilema de chorar pela fatídica passagem do tempo. Vivia alegremente o doce “transe da invencibilidade juvenil”.
É engraçado… O medo de morrer parece nunca ter me traumatizado o suficiente. Devo até ter, mas como ele é imediatamente substituído pela empolgação das viagens loucas (em 2 pernas ou em 2 rodas), dos saltos na imensidão, dos mergulhos profundos, das ondas e tudo o mais, talvez acabe me esquecendo que ele existe.
E mais: utilizo toda a dose de prudência para sobreviver aos esportes radicais. Cautela no curto prazo é o meu forte. Afinal, depois de tanto arriscar, continuo viva e escrevendo estas linhas, não é mesmo? Evidentemente não me livrei por completo de pequenas falhas aqui e ali: os mais atentos até descobrem cicatrizes entre as tattoos e os agentes dos aeroportos detectam os pinos de titânio no meu tornozelo… Contudo, quando a vigilância é requerida em um horizonte de tempo mais amplo, dela mais nada resta a aproveitar…
Ir aos médicos e ao dentista? Até vou, mas esqueça o “regularmente”.
E foi justamente um dente FDP que sinalizou a decrepitude batendo forte à minha porta… Ou melhor: dando um soco na minha cara e ganhando por nocaute!
Enfim, um dente sinistro assassinou meu sonho de juventude.
E como foi isso?
Bem, a trágica iniciação à terceira idade aconteceu justamente em um evento neste inverno, quando juntei os trocados para esquiar na Argentina. Adoro esquiar… Nada como acelerar deslizando pela neve!
Afoita por mais um frenesi adrenalínico, preparei minhas coisas e fui… Poucos dias antes de viajar, meu dente havia começado a ficar “sensível”. Não dei importância ao fato, claro… Nunca tive sensibilidade nos dentes ou por coisa nenhuma e, como toda troglodita, não me preocupei com uma “besteira dessas”!
No dia que cheguei à estação de esqui, meu deslumbramento com a paisagem de cair o queixo deu lugar a uma aflição lancinante, que irradiava pelos ossos da face e fazia tudo em volta do molar agonizante doer pra CARALHO!!! PQP!!!
Descansar encostando o rosto no travesseiro? Só se quisesse simular a sensação de enfiar minha cabeça numa prensa torturadora de crânios! Mesmo assim, minha teimosia praticamente hipnotizou-me para que eu colocasse os esquis e ainda fizesse bonito nas pistas… Assim, vesti todo o equipamento, deixando os óculos para o final… Quando chegou a vez deles, não apenas vi estrelas, mas testemunhei o verdadeiro “Big Bang”!
Incrivelmente, suportei com bravura e segui em frente! Mas foi neste ponto que as alucinações começaram: imaginava pistas onde não existiam e o tombo cinematográfico foi inevitável!!!! Saí toda torta e com dores em vários lugares, mas a dita cuja dor de dente não dava trégua. Por fim, desisti de tentar esquiar. Mas quem disse que os delírios passaram? Que nada! Eu chamava os bonecos de neve pelo caminho de “doutores” e chegava até a perguntar para eles – em “portunhol” – se tinham horário para uma consulta de emergência.
Dor de dente e ainda sem aproveitar a viagem? Bem, se você acha que o “péssimo” não pode piorar, enganou-se: as alucinações subitamente deram lugar à consciência de que esse episódio era um sinal desastroso da assombrosa, traiçoeira e implacável caduquice.
Um dente abusado de repente transformou meus anos em séculos e trouxe a sabedoria cataclísmica de que, um dia desses, minhas aventuras poderiam terminar antes do meu próprio fim. Tudo bem abandonar este mundo exercendo meu direito de radicalizar geral, mas abandonar as peripécias antes de partir desta para uma pior? Desastre!!!
Pela primeira vez na vida tive vontade de voltar à infância. Afinal, entre a queda dos “dentes de leite” e o início do tratamento dos “dentes de leito”, há pouco tempo de diversão. Muito pouco tempo…
E se comecei a lamentar a senilidade inexorável antes de chegar aos 40, imagine em algumas décadas, dentaduras e órgãos degenerados depois… E com a própria data de validade aproximando-se perigosamente…
Assim, que o Dia das Crianças seja feliz – e eterno – enquanto dure!!!
