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Meus filhos que nunca tive

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“Vi um parto pela primeira vez com sete anos de idade e, não me pergunte como, soube naquele momento que não iria ser mãe. O que me ficou vago durante os anos seguintes foi a persistente ideia das pessoas quererem profetizar meus filhos nunca nascidos.” A frase não é minha, mas me representa com uma quase perfeição. O único desvio que lhe acomete é que eu não precisei de sete anos para descobrir minha incapacidade maternal.

Essas palavras são de autoria de um alguém que ultrapassa a marca de meio século de vida, tendo gasto vinte biênios entre trepadas casuais e promessas matrimoniais, o que, na média, lhe rendeu dois abortos.

Essa criatura, com a alma merecidamente excomungada das entranhas religiosas, acampa sob a cobertura de um prédio instalado em um dos melhores pedaços de terra deste globo. A desgraça de seus dias se deu quando, por ventura, quis o destino entregar seu corpo à tutela de um algoz, que para seu azar não conseguiu lhe arrancar a alma. Quando sentiu a vida ainda pulsante em si, buscou, internamente, algo que ainda estivesse inteiro, nada encontrou, mas tomou conhecimento de haver em seu ventre um rebento. Agarrou-se aos fatos e tragou sua vergonha: lá estava na justiça a parir a sua dor. Anos depois, outro feto se instalara em seu ventre. Este, que vindo de forma diferente, possuía, no entanto, a mesma sorte: não havia nada maternal naquele espírito. Respirou fundo e decidiu com um corte latente em sua mesquinhez: lá se foi parir o seu egoísmo para além da fronteira.

Sobre como se dão os sentidos das coisas há algo que jamais saberemos: o significado de uma gravidez alojada na singularidade de uma mulher. Acostumamos-nos tanto a encarar a prenhez da ótica do natural que nos distanciamos da complexidade que ela encerra para além do pesadelo de fraldas sujas.

O passo seguinte à confirmação de uma gravidez é sempre o início do caos. Porque assumir um filho é a tradução de um futuro de alegrias, desilusões e privações – sem saber a combinação exata desses fatores. Dar à luz e se abdicar da responsabilidade de gerir um futuro ao broto não desfaz a cicatriz de covardia e de incapacidade formada no espírito. E, por fim, no extremo da negação, expulsar o feto de seu casulo natural para o além-desconhecido deixa no mínimo a marca da violência cirúrgica, e quando isso não basta, ficam a carne e seu último suspiro como mero detalhe de um óbito cotidiano.

A verdade é que a oposição à descriminalização do aborto não traduz o verdadeiro resultado advindo dessa espécie de encarceramento biológico. Criminalizar o ato só nos torna mais cegos à questão fundamental: a vida – inclusive das mulheres. A impressão que vem sendo deixada é a de uma solução mágica inscrita no código penal, mas, o fato é que as rés morrem antes de qualquer julgamento e em condições execráveis, porque o aborto é um episódio corriqueiro nesse complexo social de ilegalidades! Nenhuma pessoa que é a favor da descriminalização do aborto é a favor dele ao rigor do ato. O que se quer apenas é o direito legitimado do corpo feminino expressar sua liberdade individual de escolhas. E a manifestação contra abortamentos está na transmissão de medidas educativas – em todas as suas formas – e na máxima do gozo de um sistema de saúde de excelência.

Precisamos de fóruns que nos deixem implorar por um estado laico que represente a todos. Precisamos de espaço para dar um basta à saúde clandestina que extorque. Precisamos parar de criar mais vítimas pobres dessa corja social. Precisamos parar de fugir, as coisas não estão funcionando, precisamos falar!

Obs: Texto inspirado na campanha da Revista TPM #precisamosfalarsobreaborto: http://revistatpm.uol.com.br/reportagens/148/precisamos-falar-sobre-aborto.html. Confira e participe!

Banheiro feminino

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Naquela noite, eu tinha me produzido toda, já que havia esperado o ano todo por aquela festa. Afinal, a chance do meu paquera aparecer por lá era enorme. A única providência que não tomei foi me depilar nas partes íntimas, pois queria garantir que se ele tentasse ir direto ao assunto, eu iria marcar para outro dia. Assim, poderia garantir a permanência na festa até o final.

Logo que pisei na balada com mais duas amigas, recebi a seguinte mensagem no grupo do whatsapp: “Galera, não vou à festa. Estou em um ‘churras’ e vou ficar por aqui”. O paquera não era mais uma possibilidade de diversão, aliás, ele já devia ter encontrado um belo divertimento onde estava.

A festa estava linda e havia dois ambientes bem distintos. Um era fechado, com uma banda daquelas que tocam em formatura e fazem uma viagem por diversos ritmos; e outro aberto, ao redor da piscina, com um grupo de samba.

No ambiente fechado, casais. Talvez se eu procurasse com atenção, poderia encontrar algum homem mais velho do que eu dando sopa, mas na primeira varredura não encontrei nada interessante.

No ambiente aberto, animação total e uma garotada bem bonita mesmo.

Pensei: “Só tem garoto.”

Meu diabinho interior respondeu: “São bonitos e animados. Não serve?”

Imaginei: “Lá vou eu beijar um garoto bêbado de quinze anos… kkk”

Após algumas risadas com amigas, ver coroas beijando garotos e ter dançado bastante, decidi ir ao banheiro mais isolado do local.

Para minha surpresa, lá estava ele ajudando o amigo bêbado. Lindo, maravilhoso, confiante, sedutor e com 20 anos talvez:

– Ooooii! Olhe minha situação cuidando de amigo bêbado… – fazendo cara de coitado.

– Oiii. Faz parte. Amizade é assim mesmo – fazendo cara de quem gostou de vê-lo, principalmente por estarmos sóbrios.

– Quantos anos você tem? – disse ele deixando o amigo e me direcionando para a parede.

– Muitos… – com um sorriso safado e mordendo os lábios.

– Mais de 30?

– Aham.

– Adoro! – me apertando contra parede e me beijando…

Após uns amassos, ele se apresenta:

– Sou o Paulo. Você não ia ao banheiro?

– Sou a Renata. Vou sim.

– Quer companhia? – com o olhar mais sexy que já pude ver em homem de qualquer idade.

Não respondi. Apenas meu sorriso e um olhar que se alternou entre os olhos dele e o banheiro foram suficientes para declarar o “sim”.

Nada mais posso descrever aqui, uma vez que não sou uma escritora de contos eróticos.

O que posso relatar é que essa experiência mudou alguns conceitos e comportamentos que tive a vida toda.

Também me mostrou que se a noite não segue o esperado, ela pode ser ainda melhor.

”Homens, não tenham medo do banheiro feminino! As oportunidades podem estar ali!”

Despedida

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Quando te perdi, você estava ali
Ao alcance do meu olhar e à altura do meu abraço
Quando te perdi, ouvi o silêncio de tuas risadas e o vazio de suas chegadas
Quando te perdi, seu cheiro estava no ar, mas já não se fazia notar
Quando te perdi, seu calar me invadiu tal qual a voz que nunca se despediu
Como posso eu dizer que perdi, se na verdade nada tive de ti?

 

Neymar podia se chamar Luizinha

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Mulher e futebol sempre combinaram. Pena que a sociedade brasileira, por vezes, não deixou e não incentivou. Luizinha que o diga.

Aos 5 anos de idade Luizinha era craque na vizinhança. Num grupo de meninos e meninas, ela era o grande destaque nas partidas de futebol. Aquelas partidas jogadas nos quintais das casas onde a trave do gol era de um lado um pé de goiabeira e de outro um par de chinelos Havaianas. Naquela época, bairro era chamado de vila e chuteira não existia; a gurizada jogava descalça.

Luizinha, que era canhota, se auto intitulava Júnior, lateral esquerdo do Flamengo. Naquele tempo áureo do Flamengo de Zico, Leandro e Adílio, ela crescia junto a seus irmãos, primos e vizinhos. Com todo seu talento, era uma exímia lateral, meio-campista e às vezes atacante. Magricela, muito ágil e habilidosa, dava vários dribles de caneta, fazia gols de cabeça e tudo que hoje assistimos nas seleções que ainda jogam o chamado futebol arte.

Mas Luizinha cresceu e, entre os 9 e 10 anos, começou a dar mais atenção aos comentários tradicionalmente arcaicos de seus familiares, os quais ela ouvia desde quando começou a compreender a lógica das palavras. “Menina não joga futebol. Tem que brincar de boneca”. “Essa menina tem que parar de jogar futebol logo logo. Fica chato”. Eis que então Luizinha, assim como várias Ritinhas, Mariazinhas, Patricinhas e tantas outras, parou de jogar bola.

O tempo passou. Luizinha estudou, terminou o ensino médio, passou no vestibular e continuava tocando sua vida já preestabelecida de jovem mulher padrão da década de 90. No segundo ano de faculdade, como brincadeira e como forma de socialização, participou do campeonato de futebol. Ali Luizinha, mesmo depois de tantos anos, não desaprendeu a arte de jogar e jogar bem. De novo, era a craque e agora artilheira do time. Depois, em campeonatos da empresa onde era estagiária também obteve o mesmo feito, com direito a medalha e tudo. Naquele tempo, não diferente de hoje, havia o preconceito e o incentivo ao futebol feminino brasileiro era precário e lastimável, para não dizer inexistente.

Hoje, para Luizinha, agora já Luiza, não há mais dribles. Não há mais gols. Não há artilharia, nem há mais chance de fazer parte do time de Marta e Cristiane. Resta a ela o prazer de prestigiar, torcer e comentar o Brasileirão. Resta colecionar figurinhas da Copa com o filho. Resta torcer por seu time do coração.

Mas, ainda sobra à Luiza a esperança de ver jogadoras serem bem treinadas e bem remuneradas, assim como lhe sobra o grande sonho de ver um dia o Brasil ser campeão mundial de futebol feminino.

E vem aí o décimo terceiro salário!

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Por lei, o pagamento da primeira parcela do décimo terceiro deve ser feito até 30/11 e, como neste ano o dia 30 cai num domingo, os pagamentos devem ser realizados até sexta (último dia útil antes da data limite).

E você já pensou o que vai fazer com esse dinheiro? O mais importante é se livrar das dívidas (ou quitar parte delas, antecipando o pagamento de parcelas) e se preparar para as despesas pesadas do Natal e início do ano (IPTU, IPVA, material escolar etc.).

Veja mais orientações neste artigo da Exame: http://economia.uol.com.br/financas-pessoais/noticias/redacao/2014/11/21/metade-do-13-salario-cai-na-proxima-sexta-veja-6-dicas-para-usar-bem.htm.

E, se você tiver oportunidade de começar a investir agora ou aumentar seus investimentos, veja esta outra dica já postada aqui mesmo no Solteirar: http://solteirar.com.br.br/dica-de-financas-aplicacao-em-fundos/. E aguarde mais dicas sobre investimentos das nossas blogueiras! 😉

Brasil republicano. Ainda somos bananas.

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Semana passada, assisti a um filme de Woody Allen, da década de 70, chamado Bananas.

Ele se passa num lugar fictício chamado San Marcos, e tanto o título como o tema do filme me fazem relembrar de um conceito que ouvia muito quando criança (seja em rodas de conversa dos mais velhos ou por uma antiga marca de roupas americanas).

República de Bananas. Um termo pejorativo criado no início do século 20, para referir-se a países politicamente instáveis, submissos a outros países e sempre com governos corruptos.

Geralmente localizados nas Américas Central e do Sul, possuem uma economia basicamente exportadora de commodities com ínfimos incentivos e investimentos ao desenvolvimento industrial e tecnológico internos.

Quanto ao aspecto social, normalmente apresentam uma grande classe de miseráveis e uma pequeníssima elite, detentora do poder político e econômico, explorando tudo a seu favor e alimentando a corrupção.

Traduzindo esse conceito para os tempos atuais, falamos de um poder altamente concentrado no governo central, dominado por uma patota que transforma a coisa pública em “cosa nostra”. Uma instituição que distribui privilégios aos “amigos do rei”, enquanto espalha custos, especialmente sobre uma classe esmagada pelos impostos e sem representação política. Ou melhor, uma classe politicamente representada por palhaços, jogadores de futebol e homofóbicos.

Tradicionalmente, uma república nasce da insatisfação com as ações econômico-sociais da monarquia. No Brasil de 1889, a insatisfação maior residia no alto índice de analfabetismo e pobreza. Passados mais de 120 anos, estamos na mesma.

Um modelo republicano pressuporia um modelo mais democrático, justo e igualitário. Já numa República de Bananas, acostuma-se com termos como mensalão, ditadura e compra de votos.

Postos todos esses conceitos (originais ou mais modernos) sobre República de Bananas, até uma criança não teria dificuldade de concluir que a fictícia San Marcos de Woody Allen poderia se chamar Brasil.