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O ser mentiroso

Roupa social, salto alto e maquiagem

Saio de casa e carrego um pacote de ansiedade, estresse…

Mas fica a vontade de viver

Saudades de eu ser

 

Reuniões, planejamento estratégico

Mais conflitos a resolver

E a família e amigos, sem tempo de conviver

O ter e o querer anulando o verdadeiro prazer

 

Quanta energia para sustentar um ser que não sou

O tempo passou e com ele um personagem ficou

Tudo se inventa para adiar

O verdadeiro momento do despertar

 

Encontro às escuras

Quem nunca teve um encontro às escuras em que a única coisa que conseguia pensar era o quanto você desejava sumir?! Ok, podem abaixar as mãos! Todo mundo está cansado de saber que não dá certo, mas mais uma vez o meu positivismo burro me convenceu que pode ser que dê certo dessa vez, não?!

Não vou entrar em detalhes de como nos pré-conhecemos, mas entendi que as coisas estavam erradas no momento em que me perguntei o que esperava desse encontro e a resposta foi um vazio que perdura até agora. Talvez tenha adotado tão fortemente a filosofia de não criar expectativas que funcionou.

Me arrependi no instante que o vi e a partir de então só consegui me julgar por ser tão superficial e desejar desaparecer daquela situação que fiz questão de me colocar. Além de mais novo, era nítida a incompatibilidade, momentos diferentes de vida e blábláblá… Por que aceitei? Só pode ser carência.

Jantamos, fomos ao cinema (Meu Deus, que filme longo!) e a cada movimento uma ansiedade em como agir. “É mancada não ficar com ele, não sei o que fazer. Por favor, por favor, não tente… ufa!” Fim do filme, levanto com pressa para evitar tentativas. “Por favor, por favor, não tente, não tente… funcionou!” Sorte que sou tão boa em dar a entender que não quero, que funciona até quando eu quero.

Saí intacta do encontro, mas com uma lição de vida das mais clichês possíveis (acho que isso faz do texto uma fábula): “Lembre-se sempre: encontro às escuras não é pra você, linda”!

 

Mulher de fases

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Ao ler o texto “Sabático Sexual” da minha amiga Renata Rios, a seguinte frase me veio à cabeça: Renatinha é uma “mulher de fases”. Sempre ouvi o termo como sendo pejorativo, com o significado de que mulheres são inconstantes.

Refletindo um pouco sobre isso e fazendo um paralelo com minha vida, cheguei à conclusão que o termo “mulher de fases” me descreve muito bem e fiquei imensamente feliz.

Fases exigem mudanças e para mudar precisamos nos adaptar a uma nova situação. É justamente por isso que, como cantava Raul Seixas, prefiro ser essa metamorfose ambulante.

Pessoas que não se arriscam, não precisam mudar e são vistas como constantes. Prefiro ser mulher de fases. Houve um fase em que tudo o que eu queria era balada, outra em que os estudos me consumiam e fiquei avessa às badalações. Isso não significa que eu tinha deixado de gostar de baladas, apenas esse tipo de diversão não era o que eu estava buscando no momento e meu foco estava em outros objetivos.

Lembro-me que tive uma fase em que a minha dedicação era toda ao trabalho e eu não tinha tempo para mais nada e também não tinha vontade de fazer outra coisa. Foi a minha fase workaholic. Já tive minha fase de mulher casada e muito dedicada ao marido, outra de mulher solteira paqueradora e ainda a fase super mamãe onde os únicos temas que me prendiam a atenção estavam relacionados a fraldas, amamentação ou bem estar infantil.

Cada uma dessas fases me trouxe uma nova experiência e deixou algum legado no meu caráter, me tornando a mulher que sou. Por isso, adoro ser mulher de fases. Quanto mais fases a mulher passar na vida, mais completa ela se torna.

O segredo é viver cada fase intensamente, absorver cada aprendizado e ser feliz em cada etapa. Ser uma mulher de fases é gratificante. Encare isso e boa fase para você!

O casamento que eu sonhei não estava nos livros de história

Desde criança eu não sonhei em casar de véu e grinalda. É verdade que sempre tive o sonho de ser princesa e, nesse caso, o vestido de noiva até chegava perto de ser a vestimenta para realizar a minha vida na realeza. Porém, a marcha nupcial sempre me causou um verdadeiro horror!

Nos meus sonhos, eu sempre fui independente. Tinha um belo carro conversível, uma casa descolada, fazia viagens incríveis e tinha um excelente companheiro. Esse marido dos meus sonhos era um cara de sorriso fácil, honesto, inteligente, bem humorado a ponto de me tirar risos espontâneos.

Talvez esteja aí a explicação de porquê meus relacionamentos têm efeito submarino, feitos para naufragar (como disse Miguel Falabella, em sua peça “Submarino”). Provavelmente minha expectativa está muito alta para esta sociedade conservadora, que se orgulha de padrões vazios de sentimentos reais.

A cerimônia de casamento nunca me importou. Sempre estive à procura, e ainda acredito que irei encontrar, de uma união entre vidas onde o mais importante será viver a tal da felicidade em estar juntos, mesmo em momentos de adversidade.

Sim, sou sonhadora, porém sei bem que as pessoas soltam gases, têm mal humor, suam, roncam, mas, mesmo assim, acredito no sentimento que motiva as pessoas a viverem juntas. Outro ponto importante, que eu também não sonhei, dividir a mesma cama, casa, estar colado o tempo todo para dizer que está casado. O casamento para mim está no coração, no sentimento que une duas pessoas a quererem estar juntas. Claro que sonho em dividir a mesma cama, até porque não curto sexo virtual, mas isso não significa que eu preciso dormir todas as noites junto com alguém, principalmente se esta pessoa sofrer de apnéia.

Tenho minhas esquisitices, gosto de respeitar o esquisito de cada um e, definitivamente, os padrões da sociedade muitas vezes sufocam as minhas necessidades básicas. Tudo isso junto, forma um tipo de repelente de homens, que se sentem perdidos neste turbilhão de emoções não descritas nos livros de história.

Estar fora do padrão causa bastante sofrimento, às vezes me pego pensando se valeu realmente a pena viver de acordo com os meus próprios padrões. Mas, neste momento, lembro que se eu não fosse eu mesma, provavelmente Juliette Silva, seria apenas um nome em algum cartório da cidade maravilhosa.

Não tenho como mudar a sociedade, mas vou vivendo de acordo com os padrões que eu acredito, incomodando alguns, fazendo outros rirem e plantando sementes de um mundo livre de convenções que nos aprisionam.

Tá sol lá fora! Vou continuar minhas reflexões na praia, tomando mate com limão e comendo biscoito Globo.

Vida de amante

Ainda com pouca experiência de vida adquiri a percepção de que a palavra puta era um codinome sobre ser mulher.

Vi putas sendo chamadas de putas. Vi minha mãe, dona de casa, sendo assim intitulada pelo meu pai. Vi meus tios falando de mulheres que transavam por dinheiro e de suas mulheres – que trepavam de graça – da mesma forma. Vi situações, com pessoas desconhecidas, em que mulheres, por muito ou por pouco, também assim o eram batizadas.

Eu entendia a falta de requinte do termo, mas já não me ofendia. Éramos todas “mulheres-putas” no mesmo patamar de subgênero, que se diferenciavam apenas pelos centavos a mais  após o coito.

A minha surpresa veio quando me envolvi com um homem casado. Sem perceber, me tornei puta num submundo, onde se deve ser invisível, silenciosa e não se tem direito a argumentos.

As pessoas não entendem que eu não fiz um plano maléfico de destruição de famílias, na verdade eu conheci um homem solteiro e, aparentemente, disponível. Foram trinta e seis meses de relacionamento e, quando comecei a achar estranho ser sempre a minha vida o cenário da nossa relação: os meus amigos, a minha casa, os meus álbuns de família. Descobri que a dele era plano de fundo de um casamento de dez anos e dois filhos!

Ainda assim, passaram-se mais quatro anos de aniversários solitários e compromissos desfeitos para acompanhar sua agenda de escapadas. Eu sou apenas um ser humano que acreditou cegamente que era preciso ter paciência, fé e autocontrole.

Fui julgada pelos meus familiares, amigos e desconhecidos. Acobertei a situação o quanto pude. Até que encontrei, entre as diversas promessas não cumpridas, algumas que fiz a mim mesma. Senti vergonha. Chorei sozinha. Por não poder falar com ninguém, gritei em silêncio.

Eu simplesmente não tinha valor frente àquela família que existia do lado oposto. Amante, por definição, é aquele que ama. E, acima de todos os julgamentos alheios, nunca me envergonhei dessa condição. Mas, decidi dar um basta àquela sequência de humilhações que me tirou o amor-próprio e transformou uma mulher apaixonada em uma espécie de vilã de famílias perfeitas.

Fui condenada por todas as pessoas que souberam da minha história, fiquei por anos em uma solitária esperando ansiosamente pela visita do carcereiro. O meu despertar foi encontrar no bolso a chave que me tirava dessa cela. Não foi fácil, mas decidi ser uma puta livre.

 

Paixão é suicídio

Nenhuma paixão é verdadeiramente livre.
Nelas, existe sempre um pouco de insanidade e cegueira.
Um descontrole. Uma obsessão. E um consequente prazer.
Um estado transiente – de quase de absorção.
Tolo em expectativas, tolo em crenças, tolo!
Esse vício na carne. Esse dilatar da pupila. Essa equação insolúvel.

Mas, senão ela, quem daria adrenalina a um corpo inerte admirando o objeto de sua cobiça?

É como estar prostrado sob o cano na expectativa do contato com um projétil mortal.
Que o vazio da monotonia é mais morte que a dor letal.